A gestação é um período de transformações profundas no corpo e na vida de uma mulher. Segundo dados do Ministério da Saúde, o início precoce do pré-natal — preferencialmente até a 12ª semana — reduz significativamente os riscos de complicações maternas e fetais. No Brasil, onde mais de 2,3 milhões de bebês nascem anualmente, adotar práticas respaldadas pela ciência torna-se fundamental para garantir saúde à mãe e ao bebê.
Neste artigo você verá:
- Alimentação balanceada com base nas diretrizes oficiais;
- Suplementação de ácido fólico e ferro segundo a OMS;
- Exercícios físicos seguros por trimestre;
- Calendário vacinal atualizado;
- Importância das consultas de pré-natal;
- Substâncias proibidas na gestação;
- Estratégias para cuidar da saúde mental;
ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO NA GESTAÇÃO
A alimentação durante a gravidez não exige "comer por dois", mas sim comer com qualidade. O Ministério da Saúde orienta priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, formando a base de uma dieta saudável. Isso significa dar preferência a frutas, verduras, legumes, grãos integrais e proteínas magras.
O ganho de peso adequado varia conforme o Índice de Massa Corporal (IMC) pré-gestacional. Mulheres com IMC normal (18,5 a 24,9) devem ganhar entre 11,5 e 16 quilos durante toda a gestação, distribuídos de forma gradual. Ganho excessivo está associado a riscos como diabetes gestacional e parto cesáreo.
Alimentos que merecem atenção especial:
- Proteínas magras: carnes sem gordura aparente, aves sem pele, ovos e leguminosas como feijão e lentilha
- Ômega-3: peixes de água fria (salmão, sardinha) duas vezes por semana, importantes para o desenvolvimento cerebral fetal
- Cálcio: três porções diárias de leite, iogurte ou queijo branco para formação óssea do bebê
- Folato natural: espinafre, brócolis e lentilhas complementam a suplementação de ácido fólico
Alimentos que devem ser evitados por risco de contaminação:
- Queijos frescos não pasteurizados (como brie e camembert)
- Carnes cruas ou malpassadas (incluindo carpaccio e sushi com peixe cru)
- Ovos crus ou mal cozidos
- Peixes com alto teor de mercúrio (atum branco, peixe-espada)
SUPLEMENTAÇÃO ESSENCIAL: ÁCIDO FÓLICO E FERRO
Essa afirmação, respaldada por estudos publicados na Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, destaca a importância crítica do ácido fólico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 0,4 mg (400 µg) diários desde o período pré-concepcional até o final da gestação.
O ferro é igualmente essencial. Durante a gravidez, o volume sanguíneo materno aumenta em aproximadamente 50%, elevando a demanda por esse mineral. A OMS orienta suplementação diária de 30 a 60 mg de ferro elementar a partir do segundo trimestre.
A tabela abaixo resume as recomendações oficiais:
| Nutriente | Dose Diária | Período de Uso | Fonte |
|---|---|---|---|
| Ácido fólico | 0,4 mg (400 µg) | Pré-concepcional até término da gestação | OMS/MS |
| Ferro | 30-60 mg | A partir do 2º trimestre | OMS |
| Iodo | 150-250 µg | Durante toda a gestação | Ministério da Saúde |
Importante ressaltar: suplementos devem ser prescritos por profissional de saúde após avaliação individual. A automedicação pode trazer riscos, mesmo com vitaminas consideradas "seguras".
ATIVIDADE FÍSICA SEGURA DURANTE A GRAVIDEZ
A prática regular de exercícios físicos durante a gestação traz benefícios comprovados: redução de 30% no risco de diabetes gestacional, menor incidência de dor lombar e preparação do corpo para o parto. O Ministério da Saúde incentiva atividades de baixo impacto para gestantes sem contraindicações médicas.
Exercícios recomendados por trimestre:
- 1º trimestre: caminhadas de 30 minutos, natação e hidroginástica. Evitar exercícios em posição deitada de costas após a 16ª semana, pois o útero pode comprimir veias importantes
- 2º trimestre: yoga pré-natal, pilates adaptado e ciclismo estacionário. Manter hidratação constante e evitar ambientes muito quentes
- 3º trimestre: caminhadas leves, alongamentos suaves e exercícios na água. Priorizar conforto e escutar os sinais do corpo
Sinais de alerta que exigem interrupção imediata da atividade e busca por atendimento médico:
- Tontura ou desmaio
- Dor abdominal intensa ou contrações regulares
- Sangramento vaginal
- Falta de ar súbita ou palpitações cardíacas
Gestantes com pré-eclâmpsia, placenta prévia ou histórico de parto prematuro devem ter liberação médica específica antes de iniciar qualquer programa de exercícios.
VACINAÇÃO NO PRÉ-NATAL
As vacinas aplicadas durante a gestação protegem tanto a mãe quanto o bebê através da transferência de anticorpos pela placenta. O Calendário Nacional de Vacinação da Gestante, mantido pelo Ministério da Saúde, define três imunizações essenciais oferecidas gratuitamente no SUS.
Vacinas obrigatórias no pré-natal brasileiro:
- dTpa (difteria, tétano e coqueluche): uma dose por gestação, preferencialmente entre a 20ª e 36ª semana. Protege o recém-nascido contra coqueluche, doença potencialmente fatal em bebês
- Influenza (gripe): dose anual da vacina da temporada, segura em qualquer fase da gestação. Reduz complicações respiratórias maternas
- Hepatite B: esquema de três doses caso a gestante não tenha imunização prévia completa
Vacinas contraindicadas na gestação por conterem vírus vivos atenuados:
- Tríplice viral (sarampo, caxumba, rubéola)
- Varicela
- Febre amarela (exceto em situações de risco epidemiológico com avaliação médica criteriosa)
Todas as vacinas do calendário nacional estão disponíveis gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). A gestante deve apresentar a caderneta de vacinação em todas as consultas de pré-natal.
EXAMES E ACOMPANHAMENTO MÉDICO
O pré-natal de qualidade é a intervenção mais eficaz para reduzir mortalidade materna e infantil. A OMS atualizou suas diretrizes em 2016, recomendando no mínimo oito consultas durante a gestação, com início nas primeiras 12 semanas. O Ministério da Saúde do Brasil estabelece seis consultas como mínimo, sendo ideal ultrapassar essa marca.
Exames laboratoriais obrigatórios no primeiro trimestre:
- Hemograma completo (avalia anemia e infecções)
- Glicemia de jejum (rastreio de diabetes pré-existente)
- Sorologias para sífilis, HIV, hepatites B e C
- Tipo sanguíneo e fator Rh (fundamental para gestantes Rh negativo)
- Urina tipo I e urocultura
A ultrassonografia obstétrica é outro pilar do pré-natal. A OMS recomenda pelo menos um exame antes da 24ª semana para:
- Confirmar a idade gestacional com precisão
- Identificar gestações múltiplas
- Detectar anomalias estruturais fetais precocemente
Gestantes com fatores de risco (diabetes prévia, hipertensão, obesidade) necessitam de acompanhamento mais frequente e exames complementares específicos, sempre sob orientação da equipe de saúde.
MEDICAMENTOS E SUBSTÂNCIAS PROIBIDAS
Muitas substâncias atravessam a barreira placentária e podem causar danos irreversíveis ao feto, especialmente no primeiro trimestre — fase crítica de formação dos órgãos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) classifica medicamentos em categorias de risco A, B, C, D e X, sendo a categoria X absolutamente contraindicada na gestação.
Substâncias proibidas sem exceção:
- Álcool: não existe dose segura. O consumo está associado à Síndrome Alcoólica Fetal, causando malformações físicas e retardo cognitivo
- Cigarro: aumenta risco de parto prematuro, baixo peso ao nascer e morte súbita infantil
- Drogas ilícitas: cocaína, crack e maconha provocam restrição de crescimento fetal e complicações neurológicas
- Isotretinoína: medicamento para acne com alto risco teratogênico (categoria X)
Medicamentos de venda livre que exigem cuidado:
- Anti-inflamatórios não esteroides (ibuprofeno, diclofenaco) após a 30ª semana
- Alguns antibióticos como tetraciclina e doxiciclina
- Anticonvulsivantes sem ajuste prévio da dose
Regra de ouro: nunca tomar medicamentos sem orientação médica durante a gestação, mesmo que sejam considerados "inofensivos" ou naturais. Chás medicinais também devem ser evitados sem prescrição.
SAÚDE MENTAL E BEM-ESTAR EMOCIONAL
A saúde mental é componente essencial do cuidado pré-natal. Estudos apontam que entre 10% e 15% das gestantes desenvolvem depressão perinatal, condição que impacta negativamente o vínculo mãe-bebê e o desenvolvimento infantil.
Sinais de alerta para depressão na gestação:
- Tristeza persistente por mais de duas semanas
- Perda de interesse em atividades antes prazerosas
- Alterações significativas no sono ou apetite
- Sentimentos de culpa excessiva ou inutilidade
Estratégias baseadas em evidências para promover bem-estar emocional:
- Participar de grupos de gestantes na UBS para troca de experiências
- Praticar mindfulness ou meditação guiada (aplicativos validados cientificamente)
- Manter rotina de sono regular, com 7-9 horas por noite
- Conversar abertamente com o parceiro e familiares sobre ansiedades
A consulta pré-natal pediátrica, recomendada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), também aborda preparação emocional para a parentalidade e responde dúvidas sobre os primeiros cuidados com o bebê.
CONCLUSÃO
Cuidar da gestação com base em evidências científicas não significa seguir regras rígidas, mas sim adotar práticas que maximizem a saúde materna e fetal com segurança. O pré-natal iniciado precocemente, aliado à alimentação equilibrada, suplementação adequada, atividade física regular e vacinação em dia, forma a base de uma experiência gestacional positiva — conceito central das diretrizes da OMS.
O próximo passo prático para toda gestante é agendar a primeira consulta na Unidade Básica de Saúde mais próxima assim que suspeitar da gravidez. O SUS oferece todo o acompanhamento pré-natal gratuitamente, incluindo exames, suplementos e vacinas. Lembre-se: investir em cuidados preventivos hoje é o melhor presente que você pode dar ao seu bebê e a si mesma.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Pré-natal. Brasília: MS, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/g/gravidez/pre-natal. Acesso em: 30 jan. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Recomendações da OMS sobre cuidados pré-natais para uma experiência positiva da gravidez. Genebra: OMS, 2016. Disponível em: https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/250800/WHO-RHR-16.12-por.pdf. Acesso em: 30 jan. 2026.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Consulta pediátrica pré-natal. São Paulo: SBP, 2023. Disponível em: https://www.sbp.com.br/pediatria-para-familias/gestacao-e-parto/consulta-pediatrica-pre-natal/. Acesso em: 30 jan. 2026.
NASCIMENTO, S. L. et al. Recomendações para a prática de exercício físico na gestação. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 36, n. 5, p. 247-254, 2014.
MARQUES, I. B. et al. Importância da suplementação do ácido fólico e do ferro na gestação. Brazilian Journal of Health Review, v. 7, n. 3, p. 12456-12468, 2024.
